domingo, 1 de agosto de 2010

100 anos de Rachel de Queiroz.

É, estava tudo uma beleza; eu até tinha engordado um pouco. Nem pensava mais nos meus banhos de cheiro, na boa cama com lastro de sola que eu tinha no Limoeiro. Também isso, e tudo o mais, estava agora virado em cinza.
Do meu conforto de sinhazina, nada. A vida era outra, eu estava endurecendo.
Já um dia inteiro a cavalo, por maus caminhos, não chegava a me deixar enfadada. Um bom mergulho na lagoa, com Libânia vigiando pra não passar homem perto (e para ela, até o Pionca, o menino do meio, ou o caçula, o Bíu, era ‘homem’).
     Eu comia, assada na brasa, banda de nambu ou de preá, ou de tatu; ou uma traíra, da lagoa, temperando o feijão. E dormia até manhã seguinte. Andava mesmo tão bem disposta que, ao fim de um desses dias de correria, João Rufo brincava, dizendo que era mais fácil o Tirano ficar enfadado do que eu.
     Mas comigo mesma, dentro do coração e da cabeça, ainda nada estava em.
Aquilo para mim era só um tempo, mas um começo pequeno, primeiros passos de um caminho que ainda tinha de ir muito, muito mais longe.

                  Memorial de Maria Moura, 1992.